No semestre passado (ou nem tão passado ainda, se levarmos em consideração a greve de servidores e docentes, mas enfim), cursei a primeira disciplina de tipografia. Desde o início sabíamos que teríamos de projetar uma tipografia e, para tanto, deveríamos escolher um “tema”. Valia quase tudo: releitura de uma fonte já existente, junção de duas ou mais fontes e até uma fonte totalmente nova, baseado em algo que gostássemos. Optei pela última alternativa e caí na asneira de decidi por trabalhar com figuras impossíveis, aquelas das quais imortalizaram o trabalho de Escher.

Figuras impossíveis são construções bidimensionais que simulam uma tridimensionalidade, mas que não podem ser realmente construídas em três dimensões. Ok, elas até podem ser construídas, mas precisam ser vistas em um ângulo específico para que “funcionem” (e por isso elas são impossíveis =D). Você certamente já se deparou com algumas delas por aí.

Caso ainda não tenha se deparado, tó aí!

Resolvida a questão do tema, passei à fase de projetação. Procurando por referências na internet encontrei a Impossible World que, com seu extenso catálogo de figuras foi de grande valia para me fazer pensar figuras impossíveis. O meu maior desafio era fazer essas figuras usando apenas formas chapadas e em uma cor. No início o catálogo me serviu para procurar soluções de alguns ângulos que não conseguia fechar, mas mais adiante cheguei num ponto onde já conseguia pensar as figuras sem auxílio nenhum.

Cada caractere dessa fonte é uma figura impossível por si só. O projeto de cada um deles ocorreu em pelo menos três fases: primeiro, eu fazia alguns esboços para estudar possíveis formatos da letra, já tentando prever que ângulos utilizar e onde poderia aplicar o trompe-l’oeil para conseguir o efeito que eu queria.

rascunharascunharascunharascunha…

Depois de chegar a um formato que me agradasse, entrava a fase de vetorização. Cada caractere foi vetorizado usando como base uma malha construtiva (um grid, se preferir) rígida, com módulos fixos. Essa foi a melhor forma que encontrei, dado o pouco tempo que tinha para desenvolver a fonte, para manter as proporcionalidades entre todos os caracteres.

Um detalhe: a fonte deveria possuir duas variações. Se você construísse algo como a Arial, deveria fazer uma versão regular e outra itálica (ou negrito, condensada, black…) pelo menos. No caso da minha fonte, era completamente inviável fazer esse tipo de variação porque cada caractere exigia muito tempo de trabalho desde o esboço inicial até o vetor, e uma versão itálica de uma letra exigiria todo um novo projeto (e nem é o caso; definitivamente essa fonte não é indicada para textos, mas sim para cartazes, capas e outras aplicações de poucas palavras). Dada essa situação, decidi que faria uma versão da fonte dom formas retas e outra com os cantos arredondados. Em vários casos o caractere teria de ser praticamente redesenhado, mas mesmo assim isso levou muito menos tempo do que levaria se eu tivesse de redesenha-los todos (e eu não conseguiria entregar meu trabalho final de tipografia esse ano! =P).

Assim, depois de vetorizar a versão reta na malha construtiva, já vetorizava também a versão arredondada do caractere.

Aqui o projeto do número três. De preto a versão reta do caractere; nas linhas azuis a versão arredondada sendo vetorizada. Ao fundo a malha construtiva.

Depois que todos os caracteres estavam vetorizados, foi a vez de trabalhar com o software editor de fontes, onde foram feitos alguns ajustes de espaçamento, kerning e retoques finais. Por fim, estava finalizada a Maurits.

Os caracteres da Maurits. Clique para ampliar.

O nome da fonte é uma homenagem a Maurits Cornelis Escher, o artista (e matemático!) que se especializou em gerar ilusões como estas e cuja obra serviu de maior inspiração para todo esse trabalho.

Gostou da fonte? Você pode baixa-la gratuitamente aqui.

Você também pode querer dar uma olhada na apresentação da fonte, que tem mais imagens e descrições do processo de construção, referências e possíveis aplicações da fonte (quem reparou na barra de caeçalho do blog ganha uma bala Xáxá!).

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Uma das diretrizes que defini enquanto produzia a Maurits era não pesquisar outros alfabetos impossíveis que porventura houvessem na internet. Isso porque queria desenvolver algo o mais autoral possível, sem influências de outros alfabetos. Agora, entretanto, estava “liberado” e descobri grandes trabalhos tipográficos com esse tema. Fica a listagem:

The Last Word, de Tsuneo Taniuchi;

Miwa Miwa, do próprio Miwa Miwa;

O alfabeto em aquarela de Jens Malmgren;

Denedo, criada originalmente nos anos 1970 por Nedo Mion Ferrario e redesenhada por Carlos Fabián Camargo, como ele explica aqui;

Impossible Alphabet, de David Macdonald.

Frustro, de Martzi Hegedűs.

Macula, de  Jacques Le Bailly (a.k.a. Baron von Fonthausen).

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